“McQueen”, oito anos depois

McQueen é uma espécie de porta de entrada para algo tão criativo quanto assustador que queremos conhecer, mas talvez não possamos compreender.”

McQueen (2018), de Ian Bonhôte e Peter Etteddgui

A 11 de Fevereiro de 2010, Alexander McQueen suicidava-se aos 40 anos em sua casa, deixando somente a nota “Look after my dogs, sorry, I love you, Lee”. A história atormentada do designer britânico que chocou e maravilhou o mundo da moda chegou aos cinemas a 4 de outubro com o documentário “McQueen” (Ian Bonhôte, Peter Etteddgui).

À moda associam-se sinónimos como fútil, superficial, material. Há, no entanto, uma dimensão criativa a par com a atualidade que influencia o que é para nós bonito ou feio, a forma como nos vemos e ao mundo. Podemos olhar para fotos antigas e envergonharmo-nos das calças descaídas dos anos 90, mais relevadora do que queremos assumir, mas usámo-las porque McQueen as lançou, não para mostrar corpo, mas para alongar o torso. E assim se entra nas fotografias de uma geração.

Ao ver o documentário, mais do que a produção interessou-me a história do rapaz gordinho e pouco glamoroso de East End que usava o dinheiro do desemprego em segredo para criar as primeiras coleções – razão pela qual ficou mais conhecido pelo segundo nome (Lee Alexander McQueen) e era visto de costas nas primeiras entrevistas.

Visceral e intimista, cada coleção era uma criação performativa com base na história pessoal de McQueen, em livros que lia ou em momentos históricos que investigava. As modelos, ao invés de montras andantes, eram pelo designer instigadas a encarnar personagens, a dar vida às criações e a ser veículos dos sentimentos que McQueen queria infligir na audiência.

McQueen (2018), de Ian Bonhôte e Peter Etteddgui

Acessórios constritivos, fogo em plena passerelle, robots e encarnação de animais, violação e niilismo, modelos vistas através de um espelho duplo como se fosse um sanatório ou modelos de aspeto alienígena, foram uma estranha e disforme lufada de ar fresco, num meio pouco habituado à estética do feio e bestial.

McQueen sabia-se diferente num mundo de convenções. Sentia-se pouco à vontade, referia-se a si mesmo como a presa numa teia de influências e expectativas que queria romper. Misógino, chocante, desrespeitoso, foram inúmeros os adjetivos usados para o descrever, mesmo depois de ter sido apontado como Diretor Criativo para a conservadora Givenchy.

Carregado com fantasmas do passado, o patinho negro feito cisne cresceu em ansiedade e teimava na perseguição. Envolveu-se com drogas e continuou durante anos numa montanha-russa de pressão alucinada, com dois espetáculos por cada estação, um para a Givenchy, outro para a marca própria.

A sanidade esvaía-se, conta-o quem trabalhava com ele. Chegou a pensar suicidar-se em palco e não concebia que continuassem a sua marca depois de morrer, por revelar em cada trabalho tanto de si.

“McQueen” é uma espécie de porta de entrada para algo tão criativo quanto assustador que queremos conhecer, mas talvez não possamos compreender. É a história de alguém que nasceu talhado para um trabalho onde não encaixava, abrindo por força espaço para a sua visão e, por isso, para uma nova forma de ver.

McQueen (2018), de Ian Bonhôte e Peter Etteddgui

Pontuação Movies’ Nest
7/10 ★
(Bom)