“Um filme macabro que nos deprime, atormentando-nos o espírito, e que necessita urgentemente de marcar uma consulta num psicólogo, mas no fundo, quem não precisa?”
As You Are (2016), de Miles Joris-Peyrafitte
O título do filme é inspirado num dos singles mais emblemáticas da banda que pôs Seattle no mapa da música, os Nirvana. A época é a da autodestruição, dos densos e melodramáticos inícios dos anos 90, estamos a falar do nascimento do grunge. Kurt Cobain, e a sua bipolaridade, foi uma musa para a construção dos dois protagonistas, Jack (Owen Campbell) um rapaz inseguro e retraído pela vida, e Mark (Charlie Heaton) um miúdo mais extrovertido e confiante nos seus ideais complicados e moralistas. Com estes três conceitos em mente, é praticamente impossível não esperar, no mínimo, algo lendário.
Um drama que nos toca e abraça com uma sensação de calma inquietante, demente e inreconfortante. Realizado e parcialmente escrito por Miles Joris-Peyrafitte, que com apenas 23 anos (na altura) foi o mais jovem talento nomeado para um Sebastiane Award. Explora a amizade entre dois rapazes e uma rapariga (Amandla Stenberg), com muita droga, álcool, porrada, armas, sexo e rock à mistura, a receita perfeita para algo violentamente trágico e certamente belo desenrolar-se perante os nossos olhos.

A fotografia e edição são simplesmente fantásticas, levando-nos para o paraíso da cinematografia simplista e bela. Retrata tudo aquilo que imaginávamos viver-se na altura, e chegamos mesmo a sentir a angústia e todo o combate à opressão associada à atormentada época do grunge.
Com performances de cortar a respiração, Heaton, Campbell e Stenberg sugaram e exploraram a quantia exata de escuridão e melancolia necessária para desenvolverem as suas personagens. O acting dos adolescentes atinge o grande pique no dia da morte de Kurt Cobain, fazendo os espetadores viverem pela primeira vez (ou segunda, como se fosse a primeira), esse grande marco da história da música. É ainda de louvar a interpretação de Charlie Heaton que, quando se encontra sozinho em frente a um espelho, a auto mutilar-se, atinge o culminar de uma atuação sem falhas.
No fundo é um drama de coming out of age completamente alternativo dos seus companheiros de tema. Sabe-se desde o início que a tragédia nos espera, mas não deixamos de sentir o suspense máximo para a atingir. Um filme macabro que nos deprime, atormentando-nos o espírito, e que necessita urgentemente de marcar uma consulta num psicólogo, mas no fundo, quem não precisa?
Pontuação Movies’ Nest
7/10 ★
(Bom)










“Bohemian Rhapsody”